Governo global

quarta-feira, julho 31, 2013

Selo presidencial Federação Unida de Planetas
É muito comum - aliás, é o procedimento padrão - vermos em diversos enredos de ficção científica uma determinada sociedade governada por um único sistema de governo, muitas vezes imperial, ditatorial, monárquico. Mesmo quando temos alguma coisa semelhante à uma presidência, vemos que as populações são muito homogêneas e também seus governos.





A Terra é dividida geográfica e demograficamente em muito territórios, que possuem suas próprias políticas e estruturas sociais - para os íntimos, países ou Estados. São soberanos dentro de suas fronteiras, legislam de maneira a seguir leis fundamentais instituídas globalmente ou seguem internamente as decisões de seu povo. Dessa forma, não existe nenhuma forma atual de governo global com soberania e jurisdição militar, executiva, legislativa, judiciária ou de constituição.

A ideia parece muito romântica e até idealista, mas suas raízes estão firmadas nos conceitos de uma política igualitária para toda a humanidade na Grécia Antiga, na formação e administração do Império Romano e o legado deste perpetuado pela Igreja Católica na figura do Papa.

Conselho da Federação Star Trek
Conselho da Federação - Star Trek

O primeiro a mencionar a criação de uma lei internacional para legislar a todos os homens foi Hugo Grotius, dramaturgo, teólogo, filósofo e poeta que, em 1625 publicou o De jure belli ac pacis (On the Law of War and Peace).

Não foi antes de Immanuel Kant que a noção de uma organização humana para permanentemente abolir o temor de guerras presentes e futuras surgiu. Em seu ensaio de 1785 - Perpetual Peace: A Philosophical Sketch (Zum ewigen Frieden. Ein philosophischer Entwurf.) - ele propõe os passos necessários para estabelecer uma nova era de paz ao redor do mundo. Lembra bastante o funcionamento da Federação Unida de Planetas de Star Trek, cujo principal objetivo é a paz em todos os mundos aliados. Kant estabeleceu três passos fundamentais que não só cessaria todas as hostilidades como também fundaria uma era de paz:

  • a Constituição de cada Estado deve ser Republicana;
  • a lei das nações deve ser fundada sobre uma federação de Estados livres;
  • a lei da cidadania deve ser limitada às condições da hospitalidade universal;

Mas para isso, Kant determinava passos imediatos:

  • nada de acordos e tratados secretos de paz se eles permitirem uma futura guerra;
  • não haverá estados independentes, grandes ou pequenos, já que o pequeno pode ser subjugado pelo maior por meio de herança cultural ou econômica;
  • Forças Armadas devem ser abolidas;
  • nenhum Estado deve interferir na constituição ou governo de outro Estado;
  • em uma guerra, nenhum estado, deve permitir o uso de hostilidades, o que inviabilizaria a paz, com o uso de assassinos, envenenadores, nem traidores e espiões que comprem posições;

Kant.

Outros autores, teólogos e filósofos propuseram sistemas semelhantes. Joseph Smith, no século XIX, propôs uma teodemocracia, dirigida pelo Reino de Deus no fim dos tempos, já que o fim do século se aproximava. O filósofo alemão Karl Krause propôs a criação de federações regionais, aglomerando vários países com semelhanças culturais, sob um governo global. Foi também um dos primeiros a prever o surgimento de blocos regionais como Mercosul e União Europeia.

O 18º Presidente dos Estados Unidos, Ulysses Grant, no século XIX, disse:

Eu acredito que, em algum dia no futuro, as nações da Terra concordarão em ter algum tipo de congresso que cuidará de difíceis decisões internacionais, semelhantes à que a Suprema Corte faz por nós.

O presidente norte-americano Harry Truman foi além, em 1948, defendendo que a Organização das Nações Unidas precisava funcionar a fim de fiscalizar e aconselhar a ação das diversas nações do mundo para promover a paz e a prosperidade mundiais. Apesar de a função da ONU seja apenas de aconselhamento e ajuda humanitária, ela é o mais próximo de um governo global que a humanidade já chegou. Temos blocos regionais agindo em interesse comum em várias áreas, também agindo apenas na forma de um conselho.

Mapa com as organizações supranacionais de cooperação. 

Na ficção científica, parece que várias espécies alienígenas conseguiram resolver os problemas resultantes de ter vários estados, blocos e etnias e possuem um governo global. Klingons, Cardassianos, Bajorianos, Vulcanos, só para citar alguns, parece que se livraram dos problemas regionais, das diferenças culturais e foram homogeneizados. Será que a perda destas diferenças culturais não seriam prejudiciais para o bom andamento da civilização?

Se olharmos para a acelerada globalização dos dias atuais, auxiliada pela comunicação, pela internet e pelas viagens transcontinentais, veremos que ao invés de baixar um padrão de civilização, as diferenças culturais e ideológicas tornaram-se ainda mais acentuadas agora que o mundo está ao alcance do click. É interessante poder dar voz para pessoas que antes não a teriam, mas isso também abre as portas para posições radicais e preconceituosas.

Se tivéssemos um governo global, a sociedade humana teria que ser muito mais consciente dos direitos humanos e responsável por suas ações para agir em nome de um bem comum e maior. Não é isso que temos globalmente, temos ações pontuais que não afetam toda a população mundial e guerras que devastam regiões inteiras, abalando a estabilidade os direitos humanos. Mesmo a ação das Nações Unidas limitam-se ao envio de ajuda humanitária, como comida, remédios, água e abrigo e ela não tem jurisdição ou poder para legislar pelos países.

Bandeira do governo global de Futurama.

É importante esse trabalho da ONU? Claro. É suficiente para termos um governo global? Acredito que não. Mas deixe seu comentário.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris