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Sexismo e ficção científica

É muito difícil tratar de sexismo na ficção científica. O material é produzido quase que exclusivamente por homens heterossexuais, para homens heterossexuais e existe pouca coisa fora do padrão. São poucos os exemplares de uma FC que não retrate o profundo sexismo da nossa sociedade que acaba sendo reproduzido à exaustão na mídia e nas artes.



Mas antes de tudo, o que é sexismo?

(...) é um termo que se refere ao conjunto de ações e ideias que privilegiam entes de determinado gênero (ou, por extensão, que privilegiam determinada orientação sexual) em detrimento dos entes de outro gênero (ou orientação sexual). Embora seja constantemente usado como sinônimo de machismo é na verdade um hiperônimo deste, já que é possível identificar diversas posturas e ideias sexistas (muitas delas bastante disseminadas) que privilegiam um gênero em detrimento a outro.

Fonte: Wikipedia

Ou seja, sexismo pode vir de ambos os gêneros. Algumas das expressões máximas sexistas:

  • É dever natural do homem o sustento da família
  • As mulheres são mais frágeis
  • Homem não chora
  • Mulher que gosta de sexo é puta
  • Os homens não prestam
  • Gays são promíscuos/não conseguem controlar seus impulsos sexuais
  • Trair é da natureza masculina

Eu costumo participar de grupos de ficção científica e é praticamente constante eu encontrar fotos sensuais de cosplayers femininas em roupas mínimas e coladas, muitas vezes totalmente diferentes dos personagens originais reproduzidos. É uma prática comum no mundo cosplay, onde os personagens masculinos são reproduzidos pelo público feminino de maneira altamente erotizada. Nada contra corpos sexualizados, seja feminino ou masculino, desde que esta não seja a única função de seus corpos, afinal o sexo faz parte da natureza humana. A maior parte do sexismo do gênero de ficção científica é dirigido às mulheres, quase sempre secundárias nos enredos.

Um exemplo básico de sexismo. 

Como a maioria dos autores é de homens brancos heterossexuais, personagens gays e transexuais não existem em seus enredos e as mulheres são sempre relegadas aos mesmos papéis: sexy babe, médica, refugiada, cientista ou a mocinha que precisa ser salva. Os homens são machões, que não se machucam, que não choram, conquistam a galáxia antes do café da manhã e beijam a mocinha no final. Se a maioria dos autores são homens brancos e heteros seus personagens, na maioria, também são.

Mas nem todo o sexismo vem só de autores homens. C.J. Cherryh, em seu livro Tripoint fala de Thomas, um rapaz que é criado em um cargueiro espacial e que não convive bem com sua mãe, pois ele é fruto de um estupro. E como isso aconteceu? Sua mãe concordou em sair com um rapaz, pois queria perder a virgindade. Só que ela mudou de ideia, não quis mais e foi violentada. Ela se culpa pelo o que aconteceu e pretende se vingar do pai. O que Thomas faz: se une ao pai e estuprador de sua mãe contra ela. A mãe desiste da vingança e de quebra ganha a antipatia de todo o clã. Ou seja, mais uma mulher culpando outra mulher por seu estupro, quando a culpa é exclusiva do estuprador. Qualquer semelhança com a realidade é proposital.

Courtney Stoker, blogueira, geek, fanática por ficção científica, diz:

Enquanto fãs de ficção científica não se incomodem que você critique seus filmes e séries, eles apenas deixam que a crítica se foque nos detalhes do roteiro, do mau roteiro, na continuidade, na ciência aplicável. Mas assim que você começa a atacar as lógicas racistas, sexistas, classistas, o que for, destes programas, alguns caras problemáticos vão logo te dispensar.

Stormtropper? 

Por que eles criticam? Eles são os consumidores e muitas vezes os produtores desta cultura sexista na ficção científica e ver sua hegemonia abalada certamente incomoda. "O que uma mulher pode criticar, sendo que esta FC com mulheres boazudas que pouco opinam e heróis brancos e machões com os quais me identifico é perfeita para mim?", pensam eles. Muitas vezes, a entrada de moças nas comunidades geeks, nerds e afins são feitas na base do cosplay, novamente fazendo o papel de decoração, com roupas coladas e decotadas, muitas vezes sem ter nada a ver com a versão original do copiado. E também desconsiderando as fãs que fazem cosplay de personagens femininas, a maioria delas, criadas usando roupas totalmente inadequadas para os cenários de onde saíram.

"Mas Sybylla, você está exagerando... Não é nada disso, essa coisa de preconceito contra a mulher na ficção científica não existe". Vou dar um exemplo bastante recente. A SFWA - Science Fiction &Fantasy Writers of America - em um dos seus clássicos boletins, o de número 200, onde Mike Resnick e Barry Salzburg, dois membros antigos da associação começaram a falar sobre as editoras e as escritoras de ficção científica. Poderíamos esperar que eles falassem sobre os enredos, sobre a inclusão no mercado editorial tão dominado por homens, certo? Na verdade, eles mantiveram o nível da conversa sobre como algumas destas autoras e editoras ficariam de biquínis e como eram bonitas.

Obviamente, as mulheres reclamaram. Por que seus corpos e aparência física eram tão relevantes em uma discussão sobre ficção científica? Eles deviam ter mais respeito por quem estava tentando mudar o cenário norte-americano e lançar mais mulheres no mercado. São todos escritores, pronto, sem diferenciação. A reclamação foi ouvida e a resposta, dada pelo autor de horror, fantasia e comédia CJ Henderson no boletim 201, era que as mulheres "deviam manter uma silenciosa dignidade como qualquer mulher faria". E completou dizendo que as mulheres deviam ser como as Barbies, que sempre foram um "modelo" para qualquer garota, já que ajudavam a manter a silenciosa dignidade que nós mulheres ~devemos~ ter.

Barbie Astronauta pode, produção? 

No boletim 202, Resnick e Salzburg voltaram, falando sobre censurar, suprimir e banir aquelas que estivessem descontentes com o que eles disseram. Eles consideraram que eram anônimos descontentes e que precisavam ser punidos, já que queriam "calar o direito de expressão" dos membros da SFWA. Fóruns de FC e escritores se revoltaram, e algumas como E. Catherine Tobler saíram da SFWA, seguida de vários outros, como Marilynn Larew, Luc Reid, Ann Aguirre, ultrajados com tamanho sexismo dentro de uma associação de escritores, aqueles tidos como os guardiões da liberdade e da igualdade. Tobler ainda escreveu:

Só porque estamos pedindo para sermos respeitadas e por termos nosso ponto de vista respeitado, não quer dizer que queremos obliterar o ponto de vista de outra pessoa.

E tudo isso aconteceu este ano. Clique e veja a capa do boletim 200. Por que as mulheres são avaliadas por sua aparência e corpo? Não deveria ser nossa produção intelectual - neste caso dos escritores - o principal fator? Duas mulheres respeitadas no círculo, falando de certos autores e editores de sunguinha não soaria mal e ofensivo para muitos? Pois é. Uma coisa é descrever uma pessoa e dar sua opinião pessoal sobre o assunto. Outra é tornar pública uma opinião sexista onde não cabe nenhum tipo de descrição sobre o tipo físico de alguém. O que eles fizeram é o que muitos caras fazem quando uma mulher posta uma opinião: "Olha, você até que é bonitinha, mas..."

As capas de pulp fictions e outras obras de FC são bons exemplos da sexualização feminina, que usando roupas totalmente inapropriadas para combate, estão lá para enfeite. O autor de FC Jim Hines recriou algumas capas de obras do tipo e o resultado é no mínimo engraçado, porém retrata o nível de livros que reproduzem os mesmos preconceitos já cristalizados na FC.

Uma das reproduções de Jim Hines com a capa de um livro de FC.

Mas e aí? Como mudar isso? Na televisão e no cinema é muito difícil. A maioria dos produtores são homens, seguindo o mesmo modelo de fãs de FC. O jeito é buscar e produzir coisa nova. Mas infelizmente a elite que escreve e consegue lançar suas obras sempre recai no mais do mesmo. Temos poucos bons exemplos de personagens que saem dessa mesmice, como Ripley, como Starbuck e alguns livros de Ursula K. Le Guin ou de Octavia Butler, e no Brasil estes livros quase não existem. O principal mesmo era uma mudança na mentalidade da população, dos produtores, dos autores, para produzir algo que fosse mais inclusiva. Nada contra produção para um nicho, mas uma produção voltada para manter estereótipos de gênero, por exemplo, é danoso, pois ele acaba perpetuado, servindo de inspiração para mais produção assim.

Eu realmente não entendo como que escritores, que possuem a capacidade de criar mundos maravilhosos, não se sintam impelidos a mudar e arriscar uma nova visão de sociedade e personagens. Esse é o poder transformador da escrita usado por uma boa causa, uma causa mais inclusiva. Infelizmente, muitas obras são barradas por editores que, com "visão de mercado", pedem mudanças nos enredos. Será que Harry Potter teria feito tanto sucesso se tivéssemos uma Hermione Granger no papel principal de salvadora do mundo?

science fiction female
Personagem feminina de FC.


Até mais!

Leia também:

A ficção científica e a estranha tara por mulheres em tubos
Algumas frases extraídas do boletim 200 da SFWA
Being Barbie
Dear SFWA
Cover Posing, by Jim Hines
SFWA, Sexism, Misogyny, and a Call For Change
The SFWA Bulletin, Censorship, Anonymity, and Representation
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