Resenha: Solaris, de Stanislaw Lem

sexta-feira, abril 05, 2013

Solaris é um daqueles livros para ter na prateleira e de tempos em tempos pegar para folhear, reler e se debruçar sobre o tema espinhento e ainda sem solução a respeito de contatos extraterrestres. Como entrar em contato? Ele é possível? Podemos nos manter sãos aos nos deparar com um alienígena tão singular como o que é apresentado em Solaris?




O livro

Solaris, do polonês Stanislaw Lem, foi escrito em 1961. Vendeu mais de 20 milhões de cópias no mundo todo e se tornou um dos clássicos obrigatórios para qualquer leitor de ficção científica. Uma narrativa leve, bem escrita e que se debruça sobre um tema complicado.

As capas em português tinham resoluções péssimas. 

Solaris é um planeta, orbitando duas estrelas, mas não é um lugar comum. O próprio narrador, o psicólogo e solarista Kris Kelvin diz que planetas como a Terra existem aos milhares, mas um como Solaris ainda não fora encontrado. O único ser vivo deste planeta misterioso é um imenso oceano feito de um tipo de plasma, responsável pelo estranho comportamento orbital do mesmo. Por essa razão, muitos cientistas acreditam que este oceano seja um ser vivo e que denote inteligência.

Muita gente se dedicou à estudar o planeta, o que levou à criação da Solarística, um ramo da ciência próprio para estudá-lo e assim tentar um contato com aquela imensa massa oceânica de vontade própria, que por vezes reage aos estímulos humanos, mas por outras nos ignora totalmente. Após tantas expedições ao planeta, o Instituto de Planetologia financia a construção de uma estação flutuante para manter no local uma equipe cuja finalidade é estudar e quem sabe entrar em contato com o ele.

George Clooney é Kris Kelvin, na adaptação para os cinemas de 2002.

Kris Kelvin chega à estação de Solaris e encontra um ambiente parado, sem vida, com desordem em vários lugares. E encontra um dos cientistas da equipe, Snow, totalmente transtornado, não acreditando no que via, nem mesmo conseguindo falar direito com Kris, que pergunta sobre os outros membros, inclusive Gibarian, amigo seu que acabou tirando a própria vida. O que Kris descobre em seguida é que a tripulação era atormentada por pessoas de seu passado, emanações de suas mentes surgidas praticamente do nada. Elas são indestrutíveis e sentem uma enorme necessidade de ficar perto da pessoa que a "criou". Na verdade, elas são enviadas pelo grande oceano do lado de fora da estação, não são compostas por átomos e sim por neutrinos e não morrem, mesmo que tentem.

Kris é relutante em aceitar sua visitante: Rheya, sua esposa suicida que aparece em seu quarto enquanto dorme. Ele vive um dilema: encarar a situação com a frieza da ciência ou se dedicar ao amor que perdera há tantos anos?


Ficção e realidade

Chega um determinado momento do livro em que você se pergunta sobre quem estaria estudando quem. O homem estuda o oceano, ou é o oceano que nos estuda, enviando essas cópias para o nosso convívio? O leitor também passa a questionar, o que é um ser vivo? Baseados apenas com os conhecimentos já acumulados a respeito da vida no nosso próprio planeta, podemos baixar um padrão para o restante do universo quando o assunto é vida?

A Solarística, com relutância, admitia que o oceano pudesse ser uma forma de vida, porém não tinha a inteligência necessária para entrar em contato conosco, algo que os humanos vinham fazendo desde o princípio quando perceberam que aquele não era um oceano comum. No entanto, não esperavam que o contato se desse de uma forma tão traumática para a tripulação e não puderam entender que tipo de contato era esse. Lem consegue levar o leitor por caminhos tortuosos de maneira a nos pôr para pensar. Mesmo que a vida lá fora exista, mesmo que ela seja inteligente, seremos capazes de estabelecer um contato com ela?


No filme de 2002, adaptado por Steve Soderbergh, Gordon, personagem de Viola Davis, questiona Kris a respeito das cópias: "E se acontecesse na Terra, o mesmo que aqui, só que em escala global?". Podemos imaginar o pânico generalizado, os suicídios, tudo porque somos incapazes de entender a mensagem enviada por um ser vivo que extrapola tudo o que conhecemos como vida. Buscamos tanto um contato extraterrestre - veja todo o legado deixado pelo programa SETI no imaginário das pessoas - que devemos também questionar se seremos capazes de compreender o que eles querem dizer se esse contato um dia acontecer.


Pontos positivos
Leitura prazerosa
Rigor científico
Tema inovador e pertinente
Pontos negativos

Muita explicação sobre a solarística pode ser chata em alguns momentos


Título: Solaris
Autor: Stanislaw Lem
Nº de páginas: 272
Editora: a última edição era da Relume-Dumara, e está esgotada


Avaliação do MS?
Solaris não é um livro qualquer. Ele traz reflexões profundas sobre vida, sanidade, ser humano e sobre o espaço. É aquele tipo de livro que nos coloca para pensar, além de trazer as análises e pensamentos científicos tão bem tecidos por Lem na ciência solarística. Um clássico incomparável. Leia, releia e reflita sobre Solaris, vale muito à pena.

Até mais!

Leia também:
Solaris e as dimensões da vida, Teia Neuronial.

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





Leia esses também...

0 comentários

Viajantes

Curta no Facebook

❤️


"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris