Ficção científica e urbanização

quarta-feira, abril 24, 2013

Uma coisa que sempre me impressionou, seja na Geografia, seja na ficção científica, são as cidades. A gente vive nelas, a produz, a consome, mas não percebemos a importância que esses movimentos nossos fazem nela. A FC nos mostrou várias cidades incríveis, mostrou o que a tecnologia pode fazer por nós e pela própria cidade, mas pouco abordou o componente essencial de todas elas: nós.



Stargate Atlantis é uma das minhas séries favoritas, derivada do filme Stargate de 1994. Ela fala sobre uma expedição humana que chegou pelo stargate (um portal que cria um wormhole artificial, conectando dois pontos do espaço através de portais iguais) à mítica cidade de Atlantis, construída por uma das raças mais avançadas do universo, Os Antigos. A cidade, na verdade é uma nave gigantesca, capaz de transportar toda uma população para outros lugares e galáxias, estacionada sobre a água. Ela está na galáxia de Pégaso e mantém a única conexão com a Terra. Muito avançada tecnologicamente, construída num padrão lógico, ela guarda muitos segredos dos visitantes que não conseguiram ainda explorá-la por completo.

Stargate Atlantis
A nave-cidade de Atlantis, flutuando sobre o mar de Lantea. 

Os Antigos sofreram várias derrotas ao longo do tempo e quando se mudam para outra galáxia com sua cidade, já estão em número muito reduzido. Dez mil anos depois, sem conseguir lutar uma longa guerra, eles afundam a imensa nave-cidade e evacuam a população para a Terra novamente, na tentativa de manter sua cultura viva. É assim que a ficção científica adaptou a lenda de Atlântida, que sucumbiu às águas.

Milton Santos, o maior geógrafo brasileiro, dizia que se você detonar uma bomba de nêutrons sobre uma cidade, as construções permanecerão, mas toda a matéria orgânica será destruída. Então você perde a cidade e tudo o que ela representa, pois ela precisa da vida humana que a anima e dá forma. Ou seja, a cidade precisa da gente para que seu espaço seja produzido, criado e recriado ao longo do tempo. Se ela perde o encanto, por alguma razão, seu abandono é inevitável. Amarna, a cidade do faraó Akhenaton que o diga. Com o declínio da religião monoteísta estabelecida pelo faraó herege e com o a ascensão ao trono de Tutancâmon, sua cidade no deserto foi engolida pelas areias. Ira divina? Não. Simplesmente ela ficou vazia e perdeu sua vida.


As cidades não têm forma definida, elas não tem limites bem definidos entre si, como mostra Atlantis. Basta cruzar um farol para você ir de São Paulo para Osasco, ou de São Paulo para o Taboão da Serra. Dentro de um ambiente urbano, você pode ter áreas rurais, que não pagam IPTU. Temos casarões antigos, terrenos abandonados, prédios de luxo e favelas. Mil metros quadrados de terreno no Morumbi (bairro nobre de São Paulo) não têm o mesmo preço que mil metros quadrados na roça. Por que isso? Quem fez esse valor subir ou o que? Os espaços urbanos são produzidos de maneira diferente de um terreno afastado da cidade. Nós colocamos valores neles em cima das facilidades do entorno e da localização, pois a terra em si não tem valor. Produzimos um espaço-mercadoria que cada vez mais está caro e inacessível à maioria de nós.

O ser humano necessita para viver, ocupar um determinado lugar no espaço. Só que o ato em si não é meramente o de ocupar uma parcela do espaço; ele envolve o ato de produzir o lugar.

Ana Fani Alessandri Carlos, geógrafa da Universidade de São Paulo

Quando olho para Atlantis, percebo que por mais maravilhosa que seja sua construção e sua lógica, não consigo enxergá-la como uma cidade tal qual temos hoje. Pois ela não tem mais espaço para apropriação. Antigos terrenos de fábricas na Moóca hoje viraram condomínios. Isso não é algo a se fazer em Atlantis, pois ela segue uma lógica longe do nosso padrão de urbanização hoje. Muito provavelmente porque Os Antigos não eram capitalistas, pois as nossas cidades são produzidas e reproduzidas diante de uma lógica do capital, onde o valor de uso se sobrepuja ao valor de troca.

(...) é pela maneira como ela ocupa seu território que uma sociedade traduz seu domínio dos problemas econômicos e sociais ou mostra sua incapacidade de resolvê-los.

Robert Auzelle, arquiteto e urbanista francês

Galactic City, Clone Wars. 

Nossas cidades mudariam se nosso sistema econômico mudasse? O capitalismo pode não ser o melhor, mas é o que conseguiu se adaptar até agora aos problemas que nossa civilização encontra. Se no futuro encontrarmos uma nova maneira de produzir e viver, muito possivelmente as cidades sofrerão com essa mudança. O feudalismo é uma boa amostra do que houve com a maioria das cidades quando o modo de produção e de governo mudou de uma era para outra. Não sei se chegaríamos ao ponto de construir uma nave-cidade como Atlantis, mas acredito que ela seria limitada ao longo do tempo para uma população crescente, que necessite de mais espaço. Logo, a população poderia procurar terrenos em terra firme e abandonar a antiga cidade.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris