Cultura do estupro, até quando?

segunda-feira, abril 15, 2013

Impossível ficar de fora da polêmica a respeito da panicat Nicolle Bahls e do diretor de teatro Gerald Thomas. Para quem estava em Marte nas duas últimas semanas, o tal diretor enfiou a mão embaixo do vestido da panicat, em frente às câmeras, durante uma entrevista. Ninguém fez nada e o diretor disse que “tudo termina em panos quentes”, o que é bem comum no nosso país.




O maior problema desta atitude deplorável de Gerald Thomas é a culpa que a maioria das pessoas está atribuindo à vítima. As frases são variadas, mas falam basicamente a mesma coisa. Que ela deixou, que ela queria, que quem se veste desse jeito tá pedindo para alguém meter a mão, que é tudo vagabunda, puta e piriguete, que ela não reagiu, etc., etc., etc..

Para fins de definição, o que é um estupro?

De acordo com o Wikipedia:

Estupro ou violação é a prática não-consensual do sexo, imposto por meio de violência ou grave ameaça de qualquer natureza por ambos os sexos.

De acordo com o dicionário online:

Ato de coagir uma mulher, com violência ou ameaças, à prática do ato sexual; coito forçado; violentação.

A definição acima devia ser mudada, pois a prática não consensual do sexo também atinge os homens.

O que a cultura do estupro quer dizer então? Para a feminista Susan Brownmiller, havia (e há) uma cultura que dizia que a mulher pode ter contribuído para o seu estupro se ela não resistiu da maneira adequada. Uma mulher teria que provar que não estava vestida de maneira provocante ou que não estava sozinha na rua à noite, pois estes fatos seriam atenuantes ao estupro em si. Ou seja, é a mulher que provoca e o pobre homem irracional, que não se controla, é levado ao sexo forçado.


Eu não assisto ao Pânico, acho um programa deplorável, com um humor altamente questionável, que gosta de deixar as celebridades constrangidas com suas brincadeiras imbecis. As panicats estão lá praticamente como adornos, mas achar que um vestido curto e um salto alto são convites para apalpamento e abuso sexual - aquilo foi um abuso - é cultura do estupro de graça, na televisão. E a direção do Pânico encarou como uma brincadeira, não foi por mal. Mas o soco que o Vesgo tomou do Netinho, aí sim foi agressão.

É difícil explicar para um homem e para a sociedade em geral o que é o estupro e o medo que essa palavra causa em uma mulher. Para muitos, é sexo não consensual, é quando uma mulher oferece e depois muda de ideia, é quando a mulher faz charminho, onde um NÃO quer dizer TALVEZ. Essa cultura, esse mito ridículo, é o que leva os homens (não todos) a imaginar que o corpo de uma mulher é um objeto, um espaço público, onde ele pode passear à vontade, pois ele está ali apenas para sua apreciação.

Estupro não está relacionado a sexo, está relacionado a poder. É o poder de dominar uma vítima e violar seu corpo, conseguir algo forçado, sentir o pânico e o medo emanando dela. Acredite, toda mulher, em algum momento da vida, tem um episódio de violência, assédio, agressão e abuso sexual para contar. Esse medo da violação faz parte de nossas vidas, desde o momento em que a gente sai na rua, vai trabalhar, vai à uma festa, pega um ônibus, enfim, enquanto a gente vive.


É pensar na roupa que você vai vestir e mudar de ideia, pois sabe que algo pode acontecer por estar com um vestido, com uma saia ou com uma blusa mais decotada ou marcante no corpo. As meninas são ensinadas desde pequenas a como se comportar: sente de perna fechada, não ria alto, não tome a iniciativa, não ande sozinha, não use roupa curta e/ou decotada, não beba, não coma muito, não engorde, não tenha sexo casual, não leve camisinha na bolsa, não seja vulgar, não fale palavrão. Mas os meninos são ensinados a ser pegadores, a comer as minas, a ser o fodão.

É essa cultura que torna o corpo da mulher um espaço público que leva vários homens a agir como Gerald Thomas agiu. Ahh, ela está lá "disponível", com o corpão à mostra, toda sensual, como não resistir? Eu sempre achei que uma das principais características do Homo sapiens era a capacidade de pensar, de aprender, de raciocinar. É uma conta bem simples de se fazer. O corpo é seu? Não? Então não mexa, não viole, não toque, não ofenda.

A Manu, do ótimo blog Limão em Limonada disse:

O que é preciso aprender é algo bastante simples: não interessa se Nicole Bahls é conhecida por fazer ensaios sensuais e é tida como um símbolo sexual. Não interessa o vestido que ela estava usando. A roupa e a maquiagem usadas por uma mulher não significa permissão para sexo. O comprimento da saia, o tamanho da blusa ou o seu decote não significam passe-livre. O fato de uma mulher beber ou “estar na rua ou em tal lugar a tal hora” não significa que ela estava querendo. Isso é falso-moralismo e hipocrisia do pior nível.

A partir do momento em que uma mulher é vista como uma coisa, parece que automaticamente ela perde seus direitos inalienáveis. E mesmo seguindo as regras de uma sociedade hipócrita e machista, ainda assim ela não é um ser humano.

Tem gente que conseguiu determinar o que é uma “mulher de verdade”, em uma listinha cheia de detalhes complicados, como: não pode ser magra demais, mas também não pode ser gostosona, porque isso é vulgar; não pode gostar de beber, nem querer se divertir; tem que ser pra casar, para cuidar do marido quando ele precisar. Se não se encaixar na listinha com outros quinhentos e oitenta e três itens, só pode ser puta. Essas pessoas também dizem que mulher não pode falar palavrão e nem gostar de sexo como os homens. Mas as feministas é que são chatas.

Aline Valek - As feministas é que são chatas

Não são todos os homens que pensam assim. Vejo pela internet e pelos blogs feministas que frequento (quem me acompanha a mais tempo sabe que sou feminista) que cada vez mais os homens se põem em nosso lugar e percebem os erros que a sociedade comete ao julgar as mulheres. Infelizmente, ainda são poucos fazendo frente aos misóginos preconceituosos. Preconceitos todos nós temos, mas é a capacidade de pensar e de aprender que nos torna capazes de superar estes preconceitos e parar de julgar as pessoas.


Deixe seu comentário e fomente o debate. Você consegue ver a cultura do estupro? O que achou do caso da panicat? Até mais!

Bônus

Leituras:
Escritos Lisérgicos - Onde termina o humor?
Escreva Lola, Escreva - "Gerald Thomas, agradeça a Deus por tentar estuprar Nicole e não a mim, ou você seria um covarde morto".
Aline Valek - As feministas é que são chatas
Limão em Limonada - Gerald Thomas e Nicole Bahls: a misognia e a cultura do estupro diretamente na sua casa
Bule Voador - Cultura do Estupro
Biscate Social Club - Bunda de fora, salto alto de “fuck me”
ActionAid - Cultura do estupro até nas salas de aula?

Vídeo:

O que fazer com uma mulher caída de bêbada?

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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