Incontinência literária

quarta-feira, março 27, 2013

livros
Eu amo livros. Amo ler. Me dá prazer olhar para as estantes e ver meus livros ali, lembrando das aventuras que vivi em cada um deles. Amo, mesmo, profundamente. Com o Kindle estou lendo ainda mais. Por outro lado, como conhecedora (um pouco) de livros, tenho visto o mercado inundado de obras para todos os gostos, o que é bacana, mas...



O que eu vejo neste momento literário brasileiro é que muitas pessoas hoje estão conseguindo lançar seus livros, colocando seus enredos no mercado, algo que era quase impossível para a raia miúda que escrevia em casa e não tinha contato com grandes editoras. Hoje temos editoras de micro, pequeno e médio porte apostando em nomes nacionais e ocupando nichos bem específicos, como ficção científica, por exemplo.

Eu acho isso muito legal mesmo. É muito bom sair da obscuridade para ganhar as prateleiras e ereaders. Ver quanta qualidade e capacidade criativa estava escondida nos computadores domésticos, pois era impossível chegar à mesa de algum grande editor. Tanto escritores quanto autores estão passando por mudanças que as grandes editoras em geral ainda não pescaram. Por sua vez, estes mesmos autores pequenos abraçam um público pequeno, pois literatura é nicho, hoje mais do que nunca com as facilidades para se lançar livros.


Mas ao mesmo tempo em que é fácil lançar livros, fica a pergunta: temos mercado para tudo isso? E se temos mercado, é para que tipo de literatura? Basta olhar para o fenômeno que Cinquenta Tons de Cinza se tornou, um livro mal escrito, mas que trata de algo que vende e vende muito: não é o sexo, mas sim nossas carências e nossas fraquezas. Abaixo, está bem explicado o que eu quero dizer:

Sem arroubos conservadores ou ideais libertários do Flower Power, a verdade parece ser uma só: o mundo está carente de sexo, como lugar de prazer, liberdade e fantasia. Está carente, desesperado, e esse livro veio para mostrar, mais uma vez, assim como os livros de autoajuda, que as nossas fraquezas são vendáveis. É um livro que, independentemente de sua qualidade, fala sobre algo de que grande parte das pessoas tem medo de falar. Seus méritos – e eles são inegáveis nesse quesito – estão centralizados na curiosidade sexual do ser humano convencional, que, por um conservadorismo inconsciente, não se permite ter determinadas experiências sexuais.

Guilherme Fernandes, Jornalismo


É só andar no ônibus e no metrô para vermos as obras pops de mão em mão. Ou seja, mesmo para o leitor, ou para quem se diz um leitor, as obras as quais ele tem acesso são apenas os blockbusters, os fenômenos de venda, aquele livro que foi bem falado pela revista semanal. Não vemos os pequenos autores e as pequenas editoras com a frequência que vemos nas redes sociais e nos blogs. Por que não? Seria falta de propaganda? Seria falta de investimentos e de livrarias interessadas em distribuir as obras?


Para mim o problema é muito simples: não temos leitores. Leitura é uma competência da linguagem, então todo mundo precisa ler, especialmente no meio digital, pois querendo ou não, gostando ou não, a inserção de dados acaba sendo sempre por meios escritos. Mesmo que uma pessoa não goste de pegar um livro e ler, ela precisa ler uma bula de um remédio, a receita do médico, o recado na porta da geladeira, a página de esportes. Mas gostar de ler implica em algo muito mais complexo.

Complexo, pois envolve gosto e principalmente custo. O livro no Brasil ainda é muito caro, mas justamente por não ser um produto massificado. Pode reparar que produtos massificados são baratos e o livro não é. Além disso, o Brasil não tem uma cultura de leitura enraizada já desde a escola e desde a tenra infância, não mantém o hábito de leitura e ainda o que se vende é mais do mesmo.


Quando Crepúsculo foi lançado, veio uma enxurrada de livros semelhantes de carona. Quando Jogos Vorazes foi lançado, porrilhões de livros distópicos com temática teen apareceram. Com Cinquenta Tons de Cinza não foi diferente. Toda Sua, Profundamente Sua, Encheção de Saco Sua entre muitos outros títulos de porn surgiram e ganharam o apelo do público. Com as facilidades que temos hoje para ler, onde você compra online, encontra livros para baixar, as pessoas ainda procuram sempre as mesmas coisas.

Temos uma incontinência literária. Cada vez que entro no Skoob vejo novos títulos, novas capas, mas sempre os mesmos temas, para o mesmo público, enquanto os autores de nichos mais específicos penam para vender uma primeira edição. Para quem não conhece o Skoob, é possível quantas pessoas cadastradas na rede leram um determinado livro. Veja abaixo a diferença entre Cinquenta Tons de Cinza, da Intrínseca, e Space Opera, da Draco. E veja as avaliações de quem leu (são subjetivas, eu sei, mas vale dar uma olhada).

Clique para ampliar

Como a procura pelo primeiro título é muito alta, ele acaba sendo mais barato que o segundo título, que é de uma editora menor. Sim, nós temos muito mais gente lendo, temos muito mais títulos no mercado, mais do que leitores. Eu vejo muitos títulos que gostaria de ler, mas eles são tantos, tantos, que eu não tenho tempo para ler tudo o que gostaria. Um indivíduo que queira ampliar sua biblioteca pode acabar com o mesmo problema, diante de tamanha oferta de capas, mas não de estilos e pode ficar até oprimido diante de tanta oferta. Eu peguei apenas Cinquenta Tons de Cinza como exemplo, pois é o top de vendas há semanas, mas isso vem acontecendo com muitos títulos. Pode apostar que o próximo livro de George RR Martin vai bombar nas prateleiras. Felizmente, é uma obra bem escrita.

Estes são só alguns pensamentos meus. Deixe nos comentários os seus. Como você vê este mercado literário, inundado de títulos?

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris