Professores do Brasil - Parte I

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Em qualquer lugar que tenha relações de trabalho, relações humanas, nós teremos bons profissionais e os maus profissionais também. Professor no Brasil é desvalorizado, ganha pouco, não é respeitado por alunos e pais, não tem plano de carreira, eu sei de tudo isso e vivi na pele cada um dos problemas. Mas eu também vi maus professores dando aulas e vi o descaso deles para com a educação. Este post fala sobre o mau professor.



Não quero que nenhum colega professor se sinta ofendido por qualquer colocação minha. Eu sei de todas as pedreiras que a gente tem que aguentar, sou professora de escola pública e acredite, sei bem como está a educação nacional. Mas não adianta tapar o sol com a peneira e dizer que temos ótimos professores injustiçados pelo sistema, pois isso já é hipocrisia.

Vou contar um caso muito particular aqui. Eu prestei concurso para o ensino público de SP em 2007. Passei e assumi o cargo no ano seguinte. Passei em uma boa colocação, fui chamada na primeira leva de professores e precisei fazer a perícia de admissão no centro de perícias do estado no centro da cidade. Estou na fila e começo a ouvir as pessoas falando sobre afastamentos, Artigo 22, sobre o concurso em si. Uma moça começou a puxar papo comigo e me perguntou se eu vinha do concurso de 2005. Eu disse que não, era do concurso do mesmo ano, 2007. Ela se espantou. "Nossa, então você deve ser inteligente, hein? Eu passei em 20 mil no concurso de 2005, já estavam quase fechando a lista quando me chamaram, fui uma das últimas."



Logo em seguida, ela começou a falar da faculdade, que não vou citar o nome. Disse que tinha feito uma licenciatura, porque era mais rápido, só três anos e que era um cursinho bem ~baratinho~ de letras, já que ela queria estudar pouco. Ela optou por não fazer Português-Inglês, porque odeia língua estrangeira. Algumas pessoas na fila concordaram com ela. É ~facinho~ estudar nos dias de hoje e conseguir um diploma, um outro disse. "Faz qualquer concursinho para o estado, espera na fila e assume o cargo, afinal não tem professor querendo dar aula e as vagas sobram."

Ali na fila eu comecei a me perguntar em onde eu tinha me metido. Era uma insatisfação geral em todos que estavam ali, fosse com a vida, fosse com o cargo que assumiriam e que alguns estavam desdenhando. Percebi que eu era um peixe fora d'água, pois a maioria dos professores já eram concursados e realizavam perícia por alguma outra razão, às vezes de saúde, ou então eram novatos no sistema, mas já vinham empurrando com a barriga desde a faculdade.

Em 2008 assumi uma escola, dava aulas para as 7ªs e 8ªs séries. Problemas ocasionais com alunos e direção, claro. Mas na real mesmo, nunca tive problema com aluno que me fizesse levá-lo para a sala da diretora. Uma professora um dia me disse assim:

Olha, eu fiz licenciatura, não quis fazer o bacharelado, já que para o aluno tanto faz, e para o governo muito menos. E te digo, foi um ensino médio melhorado, qualidade era bem questionável.


No ano seguinte, 2009, me removi para uma escola de ensino médio que na época era mais perto da minha casa, pois eu já havia concluído licenciatura e bacharelado, não precisava ficar perto da escola anterior. E ouvi uma segunda professora me dizer:

Não ligo a mínima para o aluno, quero mais é que ele se foda. Isso não é poblema meu.

Não digitei errado a citação acima. Eu ouvi professor falando "poblema", eu ouvi professor falando "menas", eu ouvi professor falando "sastifação", eu ouvi professor mandando aluno tomar naquele lugar. Tem aluno folgado? Tem. Mas tem professor tão ou mais folgado que os próprios alunos. Professores que não leem ou não sabem redigir um texto estão nas salas de aula, com a molecada. Ensinando o que?, me pergunto.

Como foi o ensino deste professor? Se ele vai para a sala de aula, assumir uma turma, formá-los na sua disciplina, como que este "poblema" não foi sanado? Isso significa que em algum momento da sua formação os problemas cognitivos ficaram para trás. Os danos causados pelo ensino ruim transformaram aquele aluno em um professor que pelo que aparenta não tem condições e nem quer melhorar para dar aulas. Muitos colegas meus diziam que não iam gastar dinheiro e tempo para fazer uma pós-graduação que não serviria para nada. Queriam apenas ganhar tempo de serviço e se aposentar.

Já nos estágios que eu fiz para a obtenção de horas - professor tem que fazer estágios em escolas, inclusive com regências, o que é sacrificante, pois a maioria dos estudantes trabalha - a professora que assinava minhas guias disse:

Você acha que eu vou ficar aqui me matando pra dar aula pra esses vagabundinhos? A gente sabe que vai virar tudo bandido mesmo. Eu tô bem, tô no estado, tô na prefeitura. Daqui a pouco dá o meu tempo e eu me aposento e mando isso aqui pastar.

Estes exemplos são de professores que davam aulas em escolas boas, uma delas muito bem colocada no ENEM, que tinham salas de aula com carteiras novas, lousa, giz, sala de informática e de leitura e até laboratórios de física, química e biologia. Tinhas cortinas nas salas e merenda. Eram limpas e bem organizadas. Não eram escolas de lata, ou quebradas, vandalizadas, nem nada. Ou seja, a primeira justificativa é que a escola é sucateada, então ele não se esforça para dar aulas em um ambiente assim, porque fica desmotivado. Como que o professor, que supostamente está lá na figura do mestre e do exemplo, pode dizer isso de seus alunos? Como que ele se formou professor, prestou um juramento e um compromisso para com o ensino - sim, nós lemos o compromisso em voz alta na formatura, como qualquer profissional - entra numa sala de aula com a consciência tranquila, sabendo que são ~vagabundinhos~ lá dentro, sem solução? Na boa, eu não tenho esse sangue frio.


É um post de desabafo. Eu não pretendo, nem tenho mais condições físicas para voltar para a sala de aula da escola pública. Dar aulas é algo que eu sei fazer e gosto, mas os desafios são tantos que eu perdi o gosto. Espero que um dia volte, mas vendo a situação da classe de professores, a desvalorização da carreira docente e o sucateamento dos cursos de licenciatura, eu vejo um período negro no ensino, ao invés de melhorias, visto que temos professores com níveis tão baixos quanto o de seus alunos. Se um médico erra, ele mata o paciente. E se um professor erra? Qual o tamanho do dano?

Deixe seu comentário. Vamos tentar entender o verdadeiro problema na formação de professores.

Até mais!

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris