O homem na ficção científica

segunda-feira, dezembro 17, 2012

Na postagem da semana passada, A mulher na ficção científica, eu falei um pouco sobre a pobreza que o gênero ainda guarda quando o assunto são as personagens femininas. Se não são altamente sexualizadas e bibelôs de garanhões, elas são fugitivas, frágeis, pessoas que ainda precisam se subordinar à alguém ou ser protegidas. O papel do homem também é carregado de clichês que estão bem marcados na realidade. Não incomodam tanto aos leitores, mas são igualmente estereotipados.





O homem na ficção científica, ao contrário da mulher, é sempre o líder, o explorador, o defensor, o machão, o grande soldado que vai conquistar a galáxia antes do café da manhã. É comumente representado como um homem branco, heterossexual e conquistador, aquele que tem muitas mulheres, não se apega a nenhuma e é reverenciado por isso. Ele vence sempre, nem que precise trapacear. Talvez as expressões máximas e mais conhecidas deste clichê sejam o capitão Jim Kirk e o comandante Will Riker, ambos de Jornada nas Estrelas.

Will Riker
Comandante William Riker, Jornada nas Estrelas.

Apesar de existirem personagens femininas que são líderes e libertas do clichê do bibelô espacial - Ellen Ripley, Kathryn Janeway, Starbuck, Almirante Caine - para os personagens masculinos é um campo muito mais diverso. A visão do homem como provedor, protetor e líder é ainda muito difundida e são poucos os enredos que ousam quebrar com esta hegemonia. Suas fraquezas são praticamente inexistentes. Não vemos personagens masculinos chorando de saudade dos filhos, da namorada/esposa/amante, não o vemos quebrar em alguma situação difícil ou desistir de algo. Suas mortes costumam ser violentas, brutais. Cenas de lutas e quebra-quebra também são constantes quando temos personagens masculinos, como se fosse uma medalha carregar marcas de pancada. Parece um cenário que condiz com a realidade.

Só recentemente algumas visões diferentes têm surgido. Battlestar Galactica é uma das séries que mais quebrou clichês e padrões de personagens em um enredo de ficção científica, apesar de ter mantido alguns. A força de Bill Adama em tentar manter a frota de refugiados unida é contrabalançada por sua relação difícil com seu filho, Lee Adama, pela perda de seu filho mais novo, Zack e pela pressão em achar um novo lar para a raça humana. São várias as cenas de choro, tristeza, o carinho para com sua nave e tripulação e uma das melhores cenas: quando ele se encara no espelho com o peito nu, vendo a cicatriz da cirurgia de emergência pela qual passou por ter levado dois tiros. Seu corpo não é atlético e as marcas da idade são visíveis em Adama. Esta cena o mostra encarando sua própria fragilidade e o quanto chegou perto de morrer, o que deixaria muita coisa para completar.

Saul Tigh é levado ao inferno emocional várias vezes ao pensar nos revezes que teve na vida e com a esposa, além da rebelião em Nova Cáprica, onde perde um olho. Em BsG, os personagens têm suas fraquezas expostas, bem como seu lado bom e seu lado podre. Todos ali, independente de seu gênero, possuem defeitos e virtudes. Nada diferente da nossa própria sociedade.

Lee e Bill Adama
Lee Adama e seu pai, Bill. Battlestar Galactica.

Personagens gays são praticamente inexistentes também. A almirante Caine em BsG mantém um relacionamento com uma Cylon, mas não traz nenhuma outra sugestão deste tipo de relacionamento quando o assunto são os homens. Existe toda uma heteronormatização quando o assunto é enredos de ficção científica. Assim como não vemos personagens masculinos gays, até mesmo as personagens femininas que mantém um relacionamento aparecem para satisfazer um público que acha este encontro altamente erótico. Ainda é uma forma de satisfazer o público masculino, em geral.

Personagens negros também costumam ser subordinados ao comandante branco, isso quando não são representados como líderes tribais ou guerreiros. Deep Space 9 quebrou padrões ao ter Benjamin Sisko como comandante, que é viúvo e tenta criar o filho em um ambiente hostil, com toda a situação tensa entre bajorianos e cardassianos. Prometheus, de Ridley Scott, trouxe um personagem negro como capitão para um filme. Mas não são muitos os representantes ainda.

Benjamin Sisko
Benjamin Sisko, Deep Space 9.

Na área da literatura, o cenário não é muito diferente. Enquanto as mulheres precisam mudar e abreviar seus nomes para publicar ficção científica, com raras exceções, os autores homens dominam completamente. Isaac Asimov, Ray Bradbury, Arthur C. Clarke são só os nomes mais conhecidos. No Brasil, é ainda mais difícil de lembrar de nomes femininos.

Enquanto eu procurava por imagens para esta postagem, me deparei com algo curioso. Ou eu achava os personagens masculinos das séries e filmes de ficção científica ou encontrava ilustrações de guerreiros medievais, com armas brancas como espadas, machados, arco e flecha. Se você for procurar por mulheres da ficção científica, como nesta página, vai encontrar N trabalhos com mulheres sensuais, robóticas, alienígenas, guerreiras, etc., etc.. Ou então, achará imagens como a que está abaixo. Ao que parece, muito da visão que ainda se tem dos personagens masculinos está ligado à truculência da Antiguidade e da Idade Média. Estão sempre com armas na mão, em posição de luta, com os músculos aparentes, reforçando aquela visão de durão, forte e inquebrável.

Podemos atribuir todos esses clichês à uma sociedade machista? Talvez. Acredito que todo homem, todo rapaz, deve ter ouvido a famigerada e altamente danosa frase quando criança: "Cala essa boca, que menino não chora!", ou ainda: "Seja homem, moleque!". Estes comportamentos são associados geralmente ao padrão feminino de ser e tudo o que é ligado a este comportamento feminino para um homem parece uma ofensa. E de fato, não vemos homens nos enredos ligados aos seus sentimentos. Muitos até zombam dessa posição mais sentimentalista, como se não fosse comportamento de homem. Rir diante do perigo, a máxima expressão.

Lembrando que essa opressão sobre os homens é indireta. Ela não é causada pelo gênero dele, ao contrário. Ele não é oprimido por ser homem, ele passa a ser comparado a uma mulher por expressas esses sentimentos e aí ele sofre com o machismo que ele mesmo aprendeu a exercer. Isso é infinitamente menor do que a opressão sofrida pelas mulheres diariamente, mas o foco do texto são apenas as representações masculinas dentro da ficção científica e não um tratado de opressão.

Arte de Bob Larkin - 1983. Ele está todo vestido, já ela...

Se uma sociedade poda os sentimentos de um menino, quando ele se tornar homem estará tão distante deles, que se conectar com eles novamente será muito difícil. Além disso, a sociedade não só mantém estes papéis de provedor, machão, pegador, como incentiva e perpetua estas atitudes, que são refletidas na literatura, nas artes, como sendo o comportamento padrão aceitável. Qualquer coisa que fuja disso, é visto como uma ameaça, visto como indesejável. Assim como perpetua que o comportamento padrão das mulheres é de ser sensível, bonita e que deve ser protegida. Ninguém é visto como um ser humano, é visto da maneira que a sociedade definiu por possuir este ou aquele aparelho reprodutor. Como disse a Sil, em um comentário no post Meninos que não choram, nas Blogueiras Feministas:

Reprima ao máximo algo grande num recipiente e essa coisa voltará com uma força muito maior, incontrolável. É isso que acontece quando se tenta suprimir e negar aos meninos essa necessidade tão humana de amor e de expressar sentimentos.

As artes, a literatura, nada mais são do que extensões de nossas sociedades, extrapoladas, torcidas e remexidas, onde jogamos personagens e os desenvolvemos. São reflexos de nossas próprias atitudes e do nosso cotidiano, política, relacionamentos. Não estou dizendo que seja errado trabalhar com estes clichês, mas acho que o excesso dele mostra como estamos reproduzindo uma visão que é prejudicial para o próprio homem ao colocá-lo como o Super Homem, infalível, inquebrável, provedor, rígido. Onde estão os outros homens que não compactuam com essa visão? Onde estão os homens de meia idade, como Bill Adama? Enquanto nos enredos as tais ~fraquezas~ femininas são supervalorizadas e exploradas ao extremo, o mesmo devia ser feito com os personagens masculinos, pois todos somos humanos. Somos medo e fortaleza em um só indivíduo e a arte não pode se limitar por apenas uma visão.

Até mais!



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Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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"A ficção científica é um substituto para todos os lugares que eu nunca vou alcançar nessa vida."

James W. Harris