Amazon no Brasil e o preço dos livros

sexta-feira, dezembro 07, 2012

AmazonDescobri que o Amazon, gigante do comércio literário lá fora, tinha começado suas operações no Brasil meio que por acaso na noite de quarta-feira. Vi tweets avisando que eles estavam para começar as vendas a qualquer momento e digitei o site brasileiro da loja. Bingo! Estavam funcionando (neste endereço www.amazon.com.br). Logo a coisa espalhou, outros sites fazendo posts sobre a chegada da loja e também chegaram as reclamações.



Assim como eu, muitas pessoas esperavam uma queda brusca nos preços dos livros assim que o Amazon chegasse por aqui. Foi isso o que aconteceu quando o Amazon entrou em outros mercados, como o do Reino Unido. Fizeram acordos agressivos para baixar os valores dos livros direto com as editoras, expandiu o mercado literário, criou clientes fiéis e apostou nos ebooks, tendo inclusive o seu famoso e-reader, o Kindle. Por enquanto, tudo o que o Amazon brasileiro oferece é o seu leitor de ebooks e os próprios em sua página.

Kindle e os livros físicos

A parte negativa disso foi a quebra das pequenas livrarias, que por não conseguirem competir com o gigante, fecharam as portas, algo semelhante à chegada dos hipermercados por aqui. E isso pode acontecer se eles adotarem as políticas agressivas de lá de fora no Brasil. Por sua vez, as livrarias, como a Cultura, estão se preparando já tem algum tempo para isso. Tanto que ela já começou a vender o Kobo, um leitor de ebooks concorrente do Kindle, e mais caro.

Mas antes de xingar a formação de cartel das livrarias e editoras contra o Amazon, que está acontecendo desde o anúncio da vinda deles, antes de reclamar que os ebooks estão caros demais na nova página do Amazon Brasil, antes de dizer que os livros em geral são caros, antes de dizer que nada vai mudar, temos que pensar. O livro é caro no Brasil por falta de leitores ou por causa dos impostos?


No mercado de fora, o livro é lançado em dois modelos: o pocket, muito mais barato, com material inferior, mas que vende horrores justamente por causa do preço e o livro mais bem acabado, com papel mais nobre, destinado a pessoas que têm maior poder aquisitivo, universidades e bibliotecas. No Brasil, quem começou com os pockets foi a Ediouro, já há várias décadas e acabou mal falada, pois ganhou fama de ter livros ruins. Somente há dez, quinze anos que a LP&M, a Martin Claret e recentemente a Cia das Letras começaram a vender pockets com ótimo acabamento. O pocket é próprio para quem vive na correria, pois é menor e foi feito para ser lido com apenas uma das mãos. Não compensa, porém para as editoras lançar as duas modalidades por causa do custo e do mercado.

Além disso, o custo final da produção do livro não favorece exatamente às editoras e sim às distribuidoras, que abocanham entre 45 e 60% do preço final de um livro. O autor fica com 10%, às vezes nem isso, o restante vai para a editora. Ou seja, o preço do livro é alto já desde a impressão. Poderíamos culpar os impostos em cima dos livros? Claro. Já ouvi muita gente dizer isso. Mas os livros são isentos de impostos desde os anos 50 (os ebooks ainda não, mas tem ebooks na página do Amazon Brasil por 2 reais e um projeto tramitando na Câmara). Então qual é o problema?


O problema é que as tiragens são pequenas. Minúsculas ao ser comparada às tiragens do exterior. Um livro aqui só rende algo numa segunda edição, na reimpressão, se vender a primeira. Se a tiragem é pequena é porque o mercado é pequeno, e se o mercado é pequeno, é porque não tem leitores. Não há interesse em livros da parte do consumidor, pois se as tiragens fossem grandes para mercado igualmente grande, os livros despencariam de preço. Não importa qual empresa vai chegar por aqui, ela vai ter que entrar no jogo e botar os preços nas alturas apenas para pagar a folha no final do mês e sobreviver. Se os livros são caros a culpa é dos próprios leitores! O brasileiro lê, em média, quatro livros por ano, e completos apenas dois. Como sobreviver com tiragens altas num lugar assim, cuja própria cultura não valoriza o livro e o próprio conhecimento?


Na minha opinião, pegaram o Amazon como bode expiatório quando o problema é cultural. Livro é caro porque não tem leitor. Ponto. Não há outro motivo para termos os disparates de preços por aqui. Não há outro motivo para que um livro que antes custava 99 reais entrar em promoção por 19,90 - provavelmente encalhou e era a melhor maneira de despachar as mercadorias.

Então, antes de reclamar do preço do Kindle, do preço do ebook, ou do preço dos livros em si cobrados pelas livrarias, pense que o consumidor para livros corresponde a uma fatia pequena do mercado e é aí que reside o problema. E o restante da população? Se houvesse cultura de livros, de leitura no nosso país, certamente muita coisa melhoraria, inclusive os preços deles.

E você? Contribua com a discussão e deixe seu comentário. Até mais!



Para quem acha que é só coisa da "minha cabeça":
NÃO LEIO POR QUE OS LIVROS NO BRASIL SÃO CAROS…CONVERSA FIADA!!!
Livros: Por que eles são tão caros no Brasil?
Por que livros são tão caros?
Livros nós temos, mas cadê os leitores?
Sobre livros e (falta de) leitores

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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