O mito dos agrocombustíveis

segunda-feira, setembro 05, 2011

Limpo?
Nós, como sociedade, sabemos que a situação do meio ambiente está complicada. Vemos a ação do homem, modificando sua paisagem e seu espaço e as consequências geradas são difíceis de arcar. Sabemos também que é preciso haver uma mudança de postura do consumidor com relação a uma série de coisas e a principal delas é com relação à poluição. O ar que respiramos contém uma carga de poluentes muito acima do aceitável, no entanto, os tão propagados salvadores da pátria, os agrocombustíveis - que você provavelmente conhece como biocombustíveis - possuem um custo ambiental tão alto, tão camuflado pelas políticas ambientais, que parece estarmos em um mundo onde as opções corretas estão acabando.

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Em outra postagem eu já falei o que penso sobre a questão do aquecimento global. Reitero que não sou contra políticas ambientais, ao contrário, acho que essa mudança de postura deve ocorrer e para ontem. Mas há todo um mito sobre os agrocombustíveis de que eles resolverão o problema da poluição e do uso de combustíveis fósseis. Não é bem assim. Assim como qualquer atividade agrícola, eles geram impactos sobre o meio ambiente: poluição das águas e do solo, erosão, desflorestamento e perda de biodiversidade. E o maior problema de todos é sem dúvida a questão da segurança alimentar.

A gente comumente pensa assim: "o biocombustível vem da cana, então não queima carbono como a gasolina faz, então ele é limpo". Esse é o discurso que até na escola é ouvido. Mas o etanol do agrocombustível, que é álcool, quando queimado produz um composto chamado aldeído e a maior parte dos aldeídos são tóxicos aos seres vivos, podendo causar irritações respiratórias, doenças pulmonares, enxaquecas, corizas, sendo que alguns são cancerígenos e mutagênicos. Alguns estudos mostram que acrescentar 10% de etanol na gasolina aumenta em 40% a emissão de aldeídos. A União Europeia e a Agência de Proteção Ambiental (APA) dos Estados Unidos consideram o formaldeído (um tipo de aldeído) como cancerígeno e o proíbem sua emissão. Na cidade de São Paulo medições da Cetesb mostraram uma concentração 160% superior de formaldeído no ar e 260% superior de acetaldeído. (Fonte: Unesp/2011)

Aquífero Ogallala
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Essa é apenas uma das implicações que o mito gera. Vejo pessoas felizes por andar em carros com biodiesel ou gasolina com parcelas de agrocombustíveis, mas esquecemos que existe um custo ambiental tão alto quanto o da extração de petróleo. No Estados Unidos, por exemplo, o número de usinas de etanol subiu de 20 em 2000 para 140 em 2008 e estão em construção mais 60 usinas que irão explorar as águas dos aquíferos Ozark (Missouri), Ogallala (Texas, Wyoming, Colorado, Nebraska, Dakota do Sul, Oklahoma, Novo México e Kansas) e Mahomet (Illionois), sendo que o Ogallala é um aquífero fechado, ou seja, não recebe recarga. Todo o meio oeste norte-americano é dependente da água dos aquíferos que será largamente utilizada na produção do etanol. E a população, fica sem água?

O desflorestamento para o cultivo também é outro problema. Se um paulista seguir sentido interior como para Presidente Prudente, por exemplo, verá imensos e intermináveis campos de cana-de-açúcar em áreas antes tidas como de florestas. Uma floresta madura ajuda a remover o CO2 atmosférico pela fotossíntese (apesar de não ser o maior causador do efeito estufa, que é o metano) e fazem isso de uma maneira muito mais eficiente do que a cana, soja ou milho. Se a floresta for derrubada, o aumento de CO2 é muito maior, pois ele costuma ser feito com queimadas.

Fome no mundo por causa dos agrocombustíveis.

O discurso dos órgãos oficiais parece bonito, mas a questão da segurança energética é estratégica, em especial em momentos de grande instabilidade política em países produtores de petróleo. O quadro geopolítico mundial aponta para uma hegemonia de blocos produtores de agrocombustíveis e para a aproximação diplomática e econômica de países desenvolvidos com este novo bloco. Sem contar o fato tenebroso que estas plantações estão empurrando a fronteira agrícola para regiões produtoras de alimentos e desalojando produtores locais. Ou seja, isso diminuirá a oferta de alimentos, causando sua inflação e um aumento na insegurança alimentar dos menos favorecidos, que já possuem acesso deficiente à comida. Em julho de 2008, no Reino Unido, o jornal The Guardian revelou um estudo do Banco Mundial que concluiu que o boom dos biocombustíveis foi responsável por 75% do aumento dramático dos preços dos alimentos em todo o mundo naquele ano.

E agora?
O que fazer? Sendo clara, não existe combustível que não seja poluente. Não existe matriz energética capaz de suprir a demanda como o petróleo faz. O futuro está cada vez mais próximo e sabemos que o petróleo está chegando ao esgotamento. A imposição de políticas ambientais por parte da ONU ou da União Europeia apenas mascara um imperialismo ecológico que muitas nações não tem condições de desenvolvimento para arcar. Acabamos como reféns desta nova ordem, pois não sabemos como agir. Gasolina ou um agrocombustível? Nenhum deles parece ser o correto, mas nossa base energética se constitui neste sistema e não vejo mudanças positivas em curto, médio e longo prazo. Cabe a nós saber ponderar nossas ações, buscando o que é correto e evitar fazer o jogo midiático de defender isso ou aquilo ou dar preferências que podem ser mais danosas do que benéficas.

E você? O que acha dos agrocombustíveis?

Até mais!

Fontes:
UNESP - Programa Redefor
America Latina en movimiento - Agrocombustibles: ¿inocencia o cinismo?
Centro de Estudos Ambientais

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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