As armas virais

segunda-feira, junho 06, 2011

Uma das coisas que mais assusta o ser humano é a doença. Talvez nem pelo fato de morrer, mas pelas seqüelas que ela pode deixar ou pela dor que pode causar. A ficção científica (e a realidade) se valem de artifícios que possam causar terror em larga escala mas nenhum deles pode ser tão terrível e causar temor maior do que as armas virais. Uma das empresas mais conhecidas deste universo é a Umbrella Corp., que por meio da engenharia genética e da virologia conseguiu criar um vírus que transforma as pessoas em zumbis.



Também chamadas de armas biológicas, as armas virais se valem de agentes patogênicos que causem doenças ou morte numa grande área geográfica. Já as armas biológicas podem se valer de vírus, bactérias e fungos como arma. Desde muito cedo na história das sociedades humanas, doenças, venenos, patógenos e outros elementos biológicos perigosos (como o ser humano) foram usados em guerras, conflitos e choques de civilizações.

Uma das táticas de guerra mais comuns era envenenar corpos d'água com cadáveres, carcaças de animais ou com venenos. Usar armas com elementos tóxicos nas lâminas também era comum. Mas foi com o advento da tecnologia que elas ganharam uma maior eficiência em campo de batalha e seu auge se deu na Primeira Guerra Mundial, onde o gás mostarda por exemplo, foi amplamente usado, cujos principais efeitos são:

  • cegueira;
  • abertura dos poros da pele;
  • rompimento dos vasos sanguíneos (veias e artérias);
  • morte dolorosa de 3 a 5 minutos se estiver em contato direto com o mesmo.

Apesar do Protocolo de Genebra, de 1925, proibir o uso de armas químicas e biológicas em guerras, ele não proíbe sua pesquisa, desenvolvimento e fabricação. E na Segunda Guerra Mundial elas seriam usadas novamente. Os nazistas utilizavam gás nos campos de concentração e os japoneses chegaram a infectar prisioneiros de guerra com vírus para fazer experiências.


A Guerra Fria foi possivelmente o período onde mais se desenvolveu armas químicas e biológicas. Uma atenção especial foi dada àquelas que se utilizam de vírus, pois eles são facilmente transmitidos e distribuídos bastando apenas alguns doentes. Não é preciso se esforçar muito na distribuição, desde que o público alvo a pegue. O restante, a própria natureza viral se encarrega.

Os vírus estão entre os agentes mais comuns no ambiente e apesar de muitos não terem efeito no ser humano - algo em torno de 98% - os 2% restantes causam muitos estragos. Em seu livro Armas, Germes e Aço, o biogeógrafo Jared Diamond associa o sucesso da colonização europeia às doenças que os colonizadores levavam. Vejamos três vírus extremamente perigosos que muito assustam e causariam grandes estragos se utilizados como arma.


VARÍOLA
Se você nasceu depois de 1978 e contraísse a varíola, é bem possível que não sobrevivesse, pois ela foi erradicada pela vacinação em massa que ocorreu um pouco antes desta data. A varíola era uma doença preocupante, que assolou regiões inteiras do globo no passado e fazia vítimas, deixando os sobreviventes com sérias ulcerações na pele. Tendo surgido na Índia (onde existe a deusa da varíola, Sitala), ela foi a responsável por exterminar 1/3 da população de Atenas em 430 a.C. e deixado o Império Romano debilitado com a morte dos homens jovens e das crianças.

Nas Américas, seu estrago foi ainda maior, chegando a uma população que nunca tivera contato com ela antes. Há inclusive relatos de soldados ingleses jogando roupas de doentes de varíola em tribos indígenas, aguardando apenas pelo surto começar. Incas, maias, astecas, nativos norte-americanos e sul-americanos foram suas maiores vítimas.

Vírus da Varíola

Rússia e Estados Unidos são, até onde sabemos, os únicos lugares onde o vírus ainda existe. Inclusive, a ex-URSS admitiu publicamente que utilizou a varíola na criação de armas virais entre 1947 e 1990, onde os soviéticos estocaram grandes quantidades do vírus para ser utilizada em bombas, granadas e aerossóis, inclusive com varíola geneticamente modificada, para ser mais letal. Se essa arma fosse liberada nos dias de hoje, grande parte da população de adultos jovens e crianças, todos nascidos após 1978, ano em que as vacinações em massa terminaram, morreriam. O último caso confirmado de varíola humana (pois existe bovina e de macaco) foi em 1977, na Somália.


EBOLA
Muitos tremem ao ouvir esse nome. Descoberto em 1976, ele ganhou o nome do rio onde foi visto pela primeira vez, no Zaire, hoje a República Democrática do Congo. Apesar de causar uma doença hemorrágica muito rara, ele é fatal, com índices de mortalidade que chegam aos 80%. Assim que entra no organismo, ele invade as células do fígado, baço, pulmão e tecido linfático onde causa danos significativos. A destruição das células endoteliais dos vasos sanguíneos leva às tromboses e depois hemorragias intensas pelos poros e orifícios do corpo. A morte acontece entre uma e duas semanas após a incubação.

Vírus Ebola

Apesar de bastante letal, o vírus não é transmitido pelo ar e sim apenas pelo contato direto com fluídos do corpo e se disseminou muito na África devido ao costume de lavar o corpo do morto antes do enterro. A única cepa de Ebola que é transmitida pelo ar, o Ebola Reston, contaminou macacos vindos das Filipinas e depois enviados para os Estados Unidos, onde contaminou outros macacos nas florestas locais, o que levou o CDC (Centro de Controle de Doenças) a ordenar o sacrifício de nada menos que 512 destes animais, temendo que o vírus se espalhasse.

Em uma única gota de sangue cabem cerca de dez mil vírus do Ebola, portanto dá para imaginar o caos de se ter uma epidemia deste porte. Por sorte, o fato de matar rápido faz dele o menos endêmico, pois assim que o paciente é isolado, ele não transmite para mais ninguém. O hospedeiro é provavelmente o macaco ou o morcego, os virologistas não têm bem certeza.


SABIÁ
Este vírus mortal é brasileiro. Porém, extremamente misterioso, pois assim como apareceu do nada, também desapareceu. Não existe sequer uma imagem dele. Ele apareceu em 1990 ao contaminar uma agrônoma em Cotia, na festa de reveillon dos pais num conjunto habitacional chamando Sabiá, daí o nome.

Sabiá
Ela morava em Campinas e passou alguns meses trabalhando em Rondônia, porém, é muito provável que ela o tenha contraído no estado de São Paulo, pois vírus deste tipo não permanecem no organismo por tanto tempo sem se manifestar. Inicialmente os médicos acharam que se tratava de febre amarela, mas o exame de sangue da moça provou que se tratava de um patógeno desconhecido. Dois pesquisadores que tentaram isolar o vírus em laboratório também se infectaram, mas sobreviveram.

Um deles, na universidade de Yale, EUA, quebrou o tubo de ensaio na centrífuga e o vírus flutuou em gotículas de água pelo ar. O Sabiá é semelhante ao Ebola, causa febre hemorrágica com estágios iniciais de febre alta, dor de cabeça, dor no corpo, fraqueza, vômitos e diarréias com sangue, conjuntivite, seguindo os estágios de hemorragia pelos orifícios e morte. Isolado pelo Instituto Adolfo Lutz, referência em virologia na América Latina, ele permanece um mistério, pois não se sabe de onde veio, nem como a agrônoma o contraiu. O hospedeiro é desconhecido. Ele é considerado um vírus de biosegurança nível 4, o mais alto, assim como o Ebola.

Vírus deste tipo - que causam febre hemorrágica - são bem conhecidos na América Latina, pois além do Sabiá existem o Junin, que apareceu na Argentina, o Guanarito, na Venezuela e o Machupo, na Bolívia. Outros que causam febre hemorrágica são a febre amarela, a dengue e o hantavírus, este último transmitido por ratos. Apenas o da febre amarela têm vacina disponível gratuitamente em qualquer posto de saúde, em especial nas rodoviárias e aeroportos e inocula por dez anos.

Uma liberação acidental ou não da varíola, por exemplo, causaria uma mortandade e uma sobrecarga nos sistemas de saúde não mais preparados a lidar com esse tipo de doença. Com as pessoas doentes, haveria uma queda na economia de grandes proporções, crise, o que seria ainda mais devastador para países pobres mais do que a própria doença. É muito comum as pessoas dizerem que vírus novos estão aparecendo, mas na verdade estes vírus já estão por aí há milhões de anos. O ser humano é que tem invadido o habitat deles, interagindo com animais silvestres que carregam doenças que muitas vezes nunca entraram em contato com seres humanos.

O problema de usar patógenos letais assim como armas virais é que cada um tem uma limitação. Apesar de serem mortais, o fato de matarem os hospedeiros já é uma forma de controle, pois assim ele não pode ser passado para ninguém. Até porque nenhum vírus é 100% mortal. O próprio Ebola mata muito mas infecta pouco pois seu método de dispersão não é eficiente. Mas nada impediria que engenharia genética faça modificações nestes vírus e os transformem em armas. Se antes no passado, in natura, eles foram arrasadores, o que impediria que isso fosse feito hoje? Simples: custo. Dinheiro.

Bioengenharia custa caro, os equipamentos e os cientistas para elaborar tais tipos de armas são de um custo proibitivo que grupo terrorista nenhum teria condições de bancar. É melhor para as companhias farmacêuticas criarem vacinas e remédios para as doenças já existentes do que criar uma cepa mortal de algum vírus, pois assim elas ganham muito mais dinheiro. Imagine o quanto não se fatura por ano apenas com os antigripais? Não é nem questão de moralidade ou respeito pela vida do ser humano que impedem as companhias de fazer isso e sim o lucro.

Se um vírus mortal matar todo mundo, adianta? Quem vai consumir os remédios? Além do mais, os vírus mais perigosos como Ebola e Sabiá são pontuais, eles aparecem de vez em quando. Já a gripe e o HIV estão muito disseminados entre a população e causam muito mais mortes por ano do que os outros dois vírus. Portanto, apesar de muito usada na ficção científica, acho que as armas virais no estilo Umbrella permanecerão no universo ficcional.

Na literatura:
Zona Quente, de Richard M. Preston (que serviu de base para o filme "Epidemia");
Vírus, de Robin Cook;
Ebola, de Willian T. Close.

Leia mais:
Viroses emergentes e reemergentes
Febres hemorrágicas por vírus no Brasil
A ameaça bioterrorista
Brazilian Hemorrhagic Fever

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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