Um mar de gente e pouca reflexão

segunda-feira, maio 23, 2011

A questão do controle de natalidade é controversa, pouco discutida e parece um tabu diabólico na sociedade brasileira. Alguns filmes de ficção científica já mostraram medidas radicais, como o caso de AI - Inteligência Artificial, onde para ter filhos era preciso conseguir uma autorização do governo. No livro e no filme Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, somente o sexo é permitido, enquanto as pessoas são geradas de modo artificial e selecionadas geneticamente. Em Gattaca, as crianças são selecionadas geneticamente com as melhores características, enquanto os nascimentos comuns são mau vistos. Controle de natalidade já é polêmico.

Mar de Gente

Até que ponto se pode decidir sobre os corpos das pessoas? E quando assunto é o aborto, ou a interrupção da gestação, os sentimentos inflamam e uma discussão religiosa, política, moral e ética se estabelece, quase nunca envolvendo ciência, debate racional e qualidade de vida. Sei disso pelos meus alunos, pois quando abordo o tema em sala de aula, a coisa explode e eu preciso gastar umas duas aulas explicando o que é aborto, o que é controle de natalidade, porque ele deve ser feito e como.

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Controlar a natalidade é controlar os nascimentos, é estabelecer políticas de planejamento familiar e impedir nascimentos indesejados. Existem várias maneiras de se fazer isso, mas ainda é possível ver crianças jogadas no lixo, mortas, abusadas e sem perspectiva de futuro. Em geral, a questão da gestação e da criação de novos seres humanos recai apenas nas mulheres enquanto os homens agem como meros reprodutores irresponsáveis. Não estou afirmando que sejam todos assim, lógico, mas o que vejo em sala de aula e na mentalidade de algumas pessoas me assusta.


Ainda mais quando defendo que o aborto deve ser legalizado para todos os casos. Um ar de assombro cobre a sala, enquanto eu espero as reações. "Abortar é matar um ser humano!", "abortar é crime!", e por aí vai. Vamos com calma nessa hora... Falar de legalizar o aborto para todas as situações não vai arrastar mulheres para as clínicas para realizar o procedimento. Elas não serão sequestradas de madrugada para a realização da interrupção da gravidez por tropas federais. É simplesmente garantir que todas as mulheres, religiosas ou não, contra ou não, grávidas ou não tenham acesso a um procedimento médico seguro ao invés de submeterem a açougueiros ou a métodos perigosos que possam esterilizá-las ou matá-las. Outro ponto: o aborto não é realizado em qualquer etapa da gravidez e sim em seus estágios iniciais quando a lei não protege um ser humano, pois legalmente ele não existe. O que existe é uma aglomerado de células em rápida divisão. Acho horrível quando os grupos pró-vida colocam um bebê bem formado e já nascido nas campanhas contra o aborto. E muitas pessoas acabam comprando essa ideia!

Uma vez um aluno fez um levantamento interessante. Ele disse que o Estado não pode interferir em nossos corpos, pois isso feria nossa liberdade e nossa segurança, portando, adotar uma política nacional de controle de natalidade seria ferir estes direitos quando o assunto deve ser trabalho no seio familiar.

E eu respondi:
O Estado interefere no nosso corpo o tempo todo. Você não pode legalmente cometer suicídio. Você não pode legalmente inalar crack ou injetar heroína na veia, mas se o Estado precisar, ele pode pegar um homem, colocar numa farda e mandar para a guerra. Então como que o Estado não interfere em nossos corpos?
Ou seja, o Estado não só tem o poder de mexer e legislar sobre nossos corpos como já o faz. Não há nada de novo nisso. A questão é expandir as políticas de controle de natalidade para um plano nacional, e não só uma política de saúde localizada, pois ela funciona em alguns lugares e em outros não. Além do mais, como pode-se garantir quando começa a vida? Tanto óvulo quanto espermatozóide são seres vivos. Ninguém é preso quando um óvulo é liberado todos os meses pelas mulheres ou nas ejaculações dos homens (sejam elas compartilhadas ou não). Acredito que o ideal seria adotar o mesmo princípio adotado nos casos de morte cerebral, só que ao contrário. Se uma pessoa está morta apenas quando seu cérebro para de funcionar, então a vida deve começar quando o cérebro começa a funcionar e isso não é imediatamente. Prevenir nascimentos não é crueldade. Prevenir nascimentos é garantir um futuro para os que estão aqui e para os que virão, quando as gestações forem pensadas com maior cuidado.


Nós já somos mais de 7 bilhões de pessoas num planeta que não tem substituto. Mulheres e crianças vivem em condições sub-humanas, comendo do lixo, sem água ou moradia digna, vítimas de guerras, conflitos tribais, pela falta de emprego e de segurança alimentar. Pode parecer um absurdo para alguns, mas acredito que o controle de natalidade deva ser sim melhor implementado, que as pessoas tenham mais acesso a procedimentos médicos como ligadura de trompas, vasectomia e aborto. Já vi alunas chorando porque estavam grávidas e pensavam no que fazer, em como os criariam, que não estavam preparadas, que perderiam toda a curtição da juventude... É. Na hora de fazer, muitas não pensam nas consequências.

E enfim, uma aluna uma vez me perguntou se eu faria um aborto, já que eu defendia a legalização para todos os casos e eu disse que não, não faria. E aí a turma foi pega de surpresa de vez. Eu disse então que estaria prevenida para impedir uma concepção indesejada, pois não tenho condições financeiras para encarar o nascimento e a criação de um novo ser humano. O bebê sempre é muito bonitinho, mas ele irá crescer, vai precisar de pais, de presença, de figura de autoridade e exemplo, de carinho e atenção, de dinheiro para ter um futuro estável e neste momento, eu não posso dar nada disso a uma criança. Qual o problema de priorizar carreira, estudos e amigos, ao invés de casa e filhos? Até porque é difícil conhecer homens que não se assustem ou se intimidem diante da inteligência de uma mulher.

O escritor e urbanista francês Robert Auzelle diz que o excesso de gente - que ele chama de "populuição" é o que causa inchaço nas grandes cidades, gera altos índices de violência e aí eu ressalto a violência contra as mulheres e as crianças, favelização e desordem civil. Cidades crescendo demais, população crescendo demais, produção alimentar voltada para gado, não é de espantar que precisamos controle de natalidade a fim de evitar o desagregamento da sociedade como um todo que não para e que vem se acelerando no tempo, nos negócios, nos relacionamentos e nas relações sexuais que geram gestações indesejadas e custo. Mais, precisamos de um pensamento laico, um pensamento que se afaste da visão patriarcal e de falsa moral quando o assunto é gerar novas vidas. Eu lembro até hoje de um episódio antigo da série Lei & Ordem, onde um caso envolvendo a explosão numa clínica de aborto (pois nos Estados Unidos o aborto é legal para todos os casos) a tenente Van Buren, delegada encarregada diz: "Estes grupos pró-vida querem que as crianças nasçam, depois não ligam a mínima para elas."

O verdadeiro entrave para que uma política efetiva de controle de natalidade seja realizada no país é a consciência da elite política brasileira, como diz Cecília Santos, em seu texto Feminismo e ser ou não ser - Mãe, no Blogueiras Feministas:
A legislação brasileira diz que o Estado é laico, mas a gente sabe que desde sempre ele é dirigido por valores morais. (Leia mais...)
Não é simplesmente impedir que novas pessoas nasçam, não sou cruel ao ponto de exigir isso, nem estou sugerindo castração para a raça humana, mesmo que alguns de fato mereçam. É garantir que aquelas que nasçam tenham acesso amplo à educação, emprego, saúde, moradia, é menor competição por recursos, é diminuir a violência. Não podemos chegar ao ponto que a França chegou, onde o crescimento vegetativo é negativo e isso compromete o desenvolvimento do país. Mas é preciso pensar com maior cuidado quando o assunto é criar novos seres humanos que enfrentarão o mundo no nosso lugar. Tudo isso possui um custo que o Estado não consegue arcar, além das consequências que a superpopulação pode gerar. Sei que parece um discurso frio, mas ou o país e a nação como um todo começam a se preocupar com o futuro, ou não sei que tipo de futuro será esse.

Sybylla

Fã do futuro e da ficção científica. Geógrafa, professora, blogueira, escritora de FC. Capitã da Frota Estelar. Esperando para voltar para o meu planeta. Leia mais.





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James W. Harris